Por que a hipertrofia é muito mais inteligente do que imaginamos? A resposta pode ser resumida no seguinte princípio, que vale a pena ler e reler:
“Nenhum suplemento faz um músculo crescer. Quem faz isso é o próprio organismo, quando conclui que aquele músculo será necessário.”
Uma máquina extraordinariamente econômica
Se perguntarmos a um grupo de pessoas como um músculo aumenta de tamanho, provavelmente ouviremos respostas bastante diferentes.
Alguns dirão que isso acontece porque ingerimos mais proteínas.
Outros atribuirão o crescimento muscular à creatina, aos aminoácidos ou aos chamados “pré-treinos”.
Há ainda quem acredite que determinados hormônios sejam capazes de produzir músculos praticamente sozinhos.
Embora cada uma dessas respostas contenha uma pequena parcela de verdade, nenhuma delas explica o fenômeno principal.
A hipertrofia muscular não começa no prato. Nem no suplemento. Muito menos na farmácia. Ela começa em uma decisão biológica tomada pelo próprio organismo. Pode parecer estranho falar em “decisão”, mas é exatamente isso que acontece.
O corpo humano procura economizar energia o tempo todo. Ao longo de milhões de anos de evolução, sobreviveram os organismos que aprenderam a utilizar seus recursos com eficiência. Construir músculo é um processo extremamente caro do ponto de vista energético. Cada nova fibra muscular exige proteínas, aminoácidos, glicose, oxigênio, minerais, vitaminas, irrigação sanguínea, controle nervoso e manutenção permanente.
Em outras palavras, músculos custam caro. Por isso, o organismo só investe nesse tecido quando percebe que ele será realmente necessário. Esse princípio é conhecido na biologia como adaptação.
Nosso corpo adapta-se continuamente aos desafios que enfrenta. Exemplos incríveis:
- Quem vive em grandes altitudes produz mais hemácias.
- Quem se expõe ao sol desenvolve bronzeamento.
- Quem permanece meses com um braço imobilizado perde músculos.
- Quem submete regularmente seus músculos a cargas progressivamente maiores recebe exatamente a adaptação oposta: hipertrofia.
Essa talvez seja a primeira grande lição da fisiologia muscular.
O organismo nunca constrói músculos porque recebeu proteínas. Ele constrói músculos porque passou a precisar deles.
Essa ideia, aparentemente simples, muda completamente a forma de enxergar suplementos alimentares e dietas hiperproteicas.
O treinamento é o verdadeiro ponto de partida
Quando realizamos um exercício de força — seja levantando pesos, utilizando elásticos ou o próprio peso corporal — as fibras musculares sofrem uma pequena deformação mecânica.
Essa deformação não representa uma lesão importante, como muitas vezes se imaginou no passado. Hoje sabemos que ela funciona principalmente como um estímulo biológico.
Proteínas localizadas na membrana das fibras musculares atuam como verdadeiros sensores de carga. Elas percebem o aumento da tensão mecânica e convertem esse estímulo físico em sinais bioquímicos, processo denominado mecanotransdução (Hornberger, 2011).
É como se o músculo dissesse ao restante do organismo: “Se esse tipo de esforço continuar acontecendo, precisaremos ficar mais fortes.” A partir desse momento inicia-se uma sofisticada cascata de sinalização celular.
Diversas proteínas passam a comunicar-se entre si até ativarem um dos principais reguladores do crescimento muscular: a via mTOR (mammalian Target of Rapamycin), considerada atualmente um dos centros de comando da síntese de proteínas musculares (Bodine et al., 2001; Laplante; Sabatini, 2012).
Perceba como esse mecanismo é elegante
A mTOR não “cria músculos”. Ela coordena o processo. Recebe informações sobre disponibilidade de aminoácidos, energia, hormônios, oxigênio e intensidade do treinamento.
Somente quando esse conjunto de sinais indica que o organismo possui condições favoráveis é que aumenta a velocidade de fabricação de novas proteínas musculares.
A proteína ingerida fornece os tijolos. O treinamento fornece o projeto.
A mTOR coordena a construção. Sem projeto, os tijolos permanecem armazenados ou serão utilizados para outras funções do organismo.
Muito além dos músculos: o cérebro também participa
Existe outro aspecto fascinante.
Durante muito tempo acreditava-se que a hipertrofia dependia exclusivamente do músculo. Hoje sabemos que o sistema nervoso participa intensamente desse processo.
Nas primeiras semanas de treinamento resistido, boa parte do aumento da força não decorre do crescimento muscular, mas da melhora na comunicação entre cérebro, medula espinhal e fibras musculares (ACSM, 2009).
Em outras palavras, antes mesmo de construir novos músculos, o organismo aprende a utilizar melhor aqueles que já possui.
Essa adaptação neural explica por que iniciantes frequentemente ficam muito mais fortes antes mesmo de apresentarem aumento perceptível da massa muscular.
Também explica por que técnica correta, progressão gradual de cargas e acompanhamento profissional são tão importantes. Treinar não significa simplesmente mover pesos. Significa ensinar o sistema nervoso e o músculo a trabalharem em perfeita sintonia.
Continua na parte 5…
Na próxima parte entraremos em um dos assuntos mais interessantes de toda a série:
- por que o descanso é tão importante quanto o treino;
- por que dormir pouco dificulta a hipertrofia;
- o papel da leucina e dos aminoácidos essenciais;
- por que excesso de proteína não significa excesso de músculos;
- como o organismo “desliga” a síntese proteica após certo limite;
- o conceito de resistência anabólica, fundamental para compreender o envelhecimento e a sarcopenia.